quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Aquela nuvem que passa... David Bowie e a soul music

Keith Richards disse certa vez, acerca da sua facilidade para compor riffs (vamos citar “apenas” Satisfaction, ok?), que havia (e há!) algo no ar, como uma nuvem. “É só pegar”, afirmou ele, acrescentando que Mick Jagger também tinha essa acessibilidade — e que os dois juntos, portanto, são quase que uma antena de captação de riffs ao quadrado, recorrendo a essa espécie de arcabouço etéreo da música pop. O comentário de Richards me veio à mente enquanto assistia a um recente documentário da BBC sobre David Bowie, Five Years (dá pra ver uns highlights em www.bbc.co.uk/programmes/b0214tj1 e assisti-lo, na íntegra, no www.netflix.com).


"Keith é o cara!", poderia muito bem dizer Bowie
Corria o ano de 1974 e o inglês era um sucesso em seu país e fora dele, sobretudo nos EUA, onde já havia se apresentado para plateias ensandecidas com aquele cara meio E.T. que estava fazendo rock and roll de uma forma totalmente nova, musical e visualmente  vide o sucesso comercial de LPs como Hunky Dory (1971), que traz as pérolas Changes e Life on Mars?, The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972), com um setlist que inclui, simplesmente, o hino Starman, sem falar no seminal The Man Who Sold The World (1970), que, se não trazia nenhum hit (a faixa-título tornaria-se muito mais conhecida na versão do Nirvana, nos anos 1990), era o marco da parceria de Bowie com o excepcional guitarrista Mick Ronson (1946-1993), que injetou distorção no rock sideral de Bowie.


O guitarrista Mick Ronson foi o responsável por formatar o som de David Bowie no início de sua carreira como astro do rock, no começo dos anos 1970
Desde que visitara a América pela primeira vez, no início dos anos 1970, Bowie tratou de manter contato com seus ídolos. Trocara ideias com o pai da arte pop Andy Warhol (1928-1987) e sua trupe. Que incluía Lou Reed (1942-2013), o qual, por sua vez, já havia deixado sua marca na história do rock com o grupo vanguardista The Velvet Underground, durante os anos 1960, e, à cata de uma nova identidade, em carreira solo, contou com a ajuda do novo amigo em ascensão para produzir o hoje celebrado álbum Transformer (1972). Isso dá a medida do patamar em que David Bowie se encontrava na época. Porém, ele deixava claro que reinventar-se era um imperativo, e não por acaso já havia exercitado (e descartado, para incompreensão dos fãs) personas tão ambíguas como fascinantes como a de Ziggy Stardust  esta um sucesso que o havia catapultado para o estrelato, subitamente.


Em 3 de julho de 1973, no palco do London's Hammersmith Odeon Theatre, David Bowie matou -- simbolicamente, porém de forma definitiva -- um de seus personagens mais marcantes, Ziggy Stardust, bem diante dos olhos incrédulos de seus fãs
O "natural", em se tratando de mainstream na música pop, é manter-se no caminho, uma vez descoberta a tão almejada "fórmula do sucesso". Mas com David Bowie  que até fome havia passado!  as coisas não funcionam assim. Então uma estrela em ascensão, ele teve a audácia de abrir mão do respeito e admiração que havia conquistado junto ao público e à crítica como astro do glam rock, a moda de então, tendo à frente Marc Bolan (1947-1977), amigo de Bowie, e decidiu enveredar por outra seara, inimaginável para um cara como ele. Assim, deixaria de ser um rocker para encarnar um soulman. Uma guinada e tanto.


O rocker troca a maquiagem glitter e a fantasia de homem do espaço por um look bem comportado, com direito a ternos Pierre Cardin e até gravata-borboleta!
Bowie poderia ter permanecido como Ziggy Stardust por décadas, sempre se repetindo em variações sobre o mesmo tema. Mas, também para frustração dos músicos que o acompanhavam, os Spiders  tendo ninguém menos que Mick Ronson à frente —, o artista queria se fazer reconhecer de uma forma completamente inédita. Voltando a Jagger e Richards, a dupla de ingleses já havia procedido de maneira parecida pouco tempo antes, durante sua turnê pela América, que resultou em temas chegados ao country no incensado Exile on Main St.uma herança que, na verdade, os Rolling Stones carregariam adiante. "Naquela época", conta Bowie no documentário, "eu estava mudando drasticamente, e a música que eu ouvia era a soul music, que, de fato, dominava os clubes dos Estados Unidos". "Eu meio que tentei fazer a minha versão daquele tipo de música, que é a base de Young Americans", prossegue.


Na capa de Young Americans, Bowie surge com uma postura despretensiosa, relaxada, ao contrário do álbuns anteriores, em que mantinha um ar quase sempre imperativo. Ele queria que as pessoas prestassem atenção na sua voz, e não nas suas roupas ou em que qualquer outra coisa 
Lançado em março de 1975, Young Americans foi o primeiro álbum em muitos anos a trazer David Bowie como ele próprio na capa. Ziggy Stardust era, definitivamente, coisa do passado, ainda que recente. Até então uma estrela mutante do glam rock, David Bowie deslumbrou-se com a soul music que dominava boa parte das paradas americanas naquela primeira metade dos anos 1970, mais especificamente com o chamado Philly Soul (ou soul da Philadelphia), carregado de arranjos de cordas e metais, além dos vocais típicos, personificado em nomes como os de Patti Labelle, Billy Paul e The Three Degrees. Mas havia também uma batida diferente de funk — e aí talvez resida a chave da novidade que fisgou o inglês branquelo. Ele já havia dado pinta de que seguiria essa toada no álbum David Live, gravado durante a turnê do irregular Diamond Dogs (1974), quando mostrou que estava disposto a concentrar-se na sua voz, a colocá-la em primeiro lugar, como um verdadeiro cantor, deixando em segundo plano a preocupação com as roupas que usava. Mas o extrato puro do seu mergulho no soul desembocaria, mesmo, em Young Americans.


Natural de Chicago, a backing vocal Ava Cherry guiou David Bowie pelos caminhos que ele precisava percorrer na América, musical e culturalmente, por assim dizer 
Incentivado por uma de suas backing vocals (e, vá lá, namorada), Ava Cherry, David Bowie partiu para Nova York, onde conheceu o Apollo Theater, a faceta mais musical do bairro afro-americano Harlem, e, mais do que isso, apreendeu a atmosfera em voga: traficantes, michês e malandros em geral ostentando terninhos justos, penteados estilizados, chapéus, botas de salto alto... Musicalmente, lá Bowie travou contato quem importava no Philly Soul naquele momento. O guitarrista de origem porto-riquenha Carlos Alomar, então com apenas 23 anos, trabalhava como músico de estúdio, mas carregava um potencial que aqueles que têm olho (e olha que David Bowie tem um só!) não deixam escapar. A primeira providência de Alomar, ao se deparar com um cara tão magro, devastado pelas noitadas e outros aditivos que circulavam livremente no showbiz dos anos 1970, foi: "Vamos para minha casa, você precisa comer algo!". Tinha início, assim, uma parceria que duraria, seguidamente, pelos próximos dez anos. Tanto quanto Mick Ronson no passado, Carlos Alomar foi o responsável por moldar o som de Bowie nessa fase de transição e, depois, quando o estrelato do camaleão já estaria consolidado, na década de 1980.


O americano de origem porto-riquenha Carlos Alomar acompanharia David Bowie por mais de dez anos, o que inclui a década de 1980, fase de maior sucesso comercial do artista inglês
Além de alimentar o astro com comida de verdade — em vez de pílulas, como faziam outros bandmates —, Carlos Alomar apresentou a Bowie "músicos fantásticos", nas palavras do próprio cantor, entre os quais estava Luther Vandross. Então bastante jovem e tímido, Vandross acabou por moldar a tessitura vocal dos arranjos do disco e tem-se, agora, um David Bowie cantando também em falsete, por vezes, mesmo que sendo sempre ele, um David Bowie com a voz anasalada pelo uso pesado de cocaína. A música Right (veja o vídeo abaixo), por exemplo, foi toda arranjada por Luther Vandross. É marcante a passagem do documentário em que uma backing vocal descreve o quão difícil foi gravar essa canção, em que os vocais são sobrepostos não por overdubs (gravações sobre gravações), mas ao vivo, “na raça”, formando uma espécie de jogral entre os backings, que poderia, muito bem, ser oriundo dos guetos. No entanto, fora criado por Bowie por meio de um exaustivo exercício. Algo que ele, embora tenha passado de aluno a mentor, só conseguiu levar a termo por ter a companhia de excelentes músicos. Que astro do rock se permitiria colocar seu presente/futuro em jogo dessa maneira?


Bowie deu tamanha autonomia ao neófito Luther Vandross que, na turnê de Young Americans, em muitas das faixas era aquele negro desconhecido do Bronx quem cantava, e não The Thin White Duke — o "Duque Branco Magro", como David logo começaria a ser chamado, tanto em razão de sua forma esquálida quanto por causa da persona de mesmo nome, que viveria em seu próximo álbum, Station to Station (1976).


The Thin White Duke, uma das encarnações mais clean de David Bowie
Se David Bowie estava conectado com a nuvem que estava prestes a desabar sobre a América, cobrindo-a de disco music, Carlos Alomar também pegou a inspiração vigente no ar e deu importante contribuição para Young Americans. Imagine-se você, experimentando um tema qualquer na guitarra, quando entra no estúdio ninguém menos que John Lennon, escoltado por Bowie. Alomar estava lá, ensimesmado, concentrado em um riff de funk, quando o ex-Beatle  de quem Bowie havia se tornado amigo e, nessa época, estava separado de Yoko Ono  começa a cantarolar "Ame" (leia-se "êime"). O que Bowie fez, modestamente, foi acrescentar um "F" antes desse termo protocacofônico, transformando a canção em Fame, a primeira faixa do ex-Ziggy Stardust a alcançar o topo das paradas americanas e, ainda hoje, um de seus maiores hits. Não é incrível que o hit tenha o dedo de John Lennon? Mais do que abrir-lhe as portas para o sucesso, sobretudo nos EUA, Lennon, ainda deu suporte a Bowie nos backing vocals. Ouça...



Bowie gravou parte do material no estúdio Record Plant, em Nova York (onde também seria feita a pós-produção, pelas mãos do seu produtor de confiança, Tony Visconti, também produtor de Marc Bolan & T.Rex), e, paralelamente, no Sigma Sound, na Philadelphia. "Eu me tornei um soulman, mas não para fazer um soul 'straight' ('careta'), e sim o meu soul", descreveria um David Bowie muito satisfeito com o resultado que obtivera, ao fazer uma incursão em território tão delicado e cujos ecos se fariam ouvir, também, em Station to Station, em especial nas faixas Golden Years e Wild Is The Wind. Sobre esta última, uma curiosidade: Frank Sinatra ouviu um dos takes gravados no estúdio Cherokee Studios, em Hollywood, Los Angeles, e se entusiasmou. A bem da verdade, por essa época, Bowie havia se tornado amigo de várias estrelas do primeiro time do show business, com a atriz Elizabeth Taylor. Ele, de fato, estava em outro patamar.


David Bowie e Liz Taylor
Talvez o que mais aproximasse o "novo" Bowie do "antigo" — o elo entre o soulman e a figura do rocker  era, curiosamente, Across the Universe, uma releitura do clássico dos Beatles, tendo John Lennon ao violão e um vocal impostado de Bowie. Porque a regravação do hard rock John, I’m Only Dancing como John, I’m Only Dancing (Again), dedicada a Lennon, viraria um extrato perfeito da disco music, dali a pouco. Bowie não a incluiu em Young Americans, lançando-a apenas como single, em 1979, em coletâneas posteriores e, ainda, como bonus track em relançamentos do álbum de 1975.


Ao ouvir um riff funkeado de Carlos Alomar, John Lennon começou a desenhar Fame, que David Bowie, em seguida, lapidou
Em outras palavras, David Bowie parecia dar de ombros para o passado recentíssimo que o alçara às alturas da esfera pop e recomeçava, quase que do zero, como um cantor debutante. O fato é que, ao agir com tamanha ousadia, ele virava uma página importante da sua biografia e fazia nascer o mito do camaleão que o acompanharia durante toda a carreira. Young Americans, a faixa-título e também a de abertura do álbum, comprova isso. E mais do que atualizar o gênero, traz na letra uma crítica social bastante intensa, não aliviando a barra nem para o ex-presidente Nixon (que havia recém-renunciado ao cargo, após o escândalo de Watergate) nem para a América que teimava em reconhecer os direitos civis das minorias apartadas do "sonho americano". Algo que, quatro décadas depois, o também polêmico cineasta dinamarquês Lars von Trier — aquele que disse que não precisaria visitar os EUA para saber como era o país, dado que os tentáculos ianques têm alcance planetário — exemplificaria em imagens de pobreza, violência e iniquidade, quando usou Young Americans como trilha de seu desconcertante filme Dogville (2003).



Nascia, assim, o plastic soul, expressão que já havia sido usada para caracterizar o que fizera Mick Jagger, ao tentar emular Otis Redding (1941-1967) e outras feras da primeira leva da soul music, nos anos 1960. Ou seja, um branco tentando cantar como um negro. Se David Bowie conseguiu? Pois foi ele um dos poucos de pele clara a se apresentar no Soul Train, programa de TV especializado em ritmos como rhythm and blues, funk e soulOutro fato que se percebe, tanto em trechos do documentário quanto se ouvindo as faixas do disco, é que, para criar soul (ou melhor, plastic soul), Bowie estudou o gênero. Mais do que isso, como um aluno devotado, tratou de desconstruí-lo, como fez, exatamente no mesmo ano, Tom Zé, em seu visceral Estudando o Samba (com certeza, acessando uma nuvem de inspiração similar), tão à frente de seu tempo que demarcou, erroneamente, o cantor e compositor baiano-universal como um maldito anticomercial. Até que David Byrne ouviu o LP uma década e meia depois. Só que esta é uma outra história...


Bowie, de certa forma, seguiu os passos que Jagger já havia trilhado nos anos 1960, porém acrescentando outros elementos ao plastic soul
Voltando ao processo de desconstrução do soul, Bowie parece dissecar o gênero, extraindo-
lhe seus principais elementos e, depois, os moldando à sua maneira. Ecos do saxofone de David Sanborn se fariam ouvir na década de 1980, assim como o jeito Bowie de cantar soul seria uma influência decisiva para George Michael — é só ouvir Somebody Up There Likes Me, de Young Americans, e Faith, do álbum homônimo de 1987. David Bowie não continuaria curtindo uma de soulman por muito tempo. Dessa forma, Young Americans funcionou muito mais como registro de um momento, de uma nuvem que pairava sobre a América e que Bowie soube captar tão bem e fez reverberar, com originalidade, sobre os EUA e o mundo todo, na forma de um tributo à música negra  e que, não podemos esquecer, redundaria na disco music, ainda incipiente (os Rolling Stones, por exemplo, só gravariam Miss You em 1978!)Em vez de portar-se como um mero repetidor, que é o que mais se vê no mundo pop, ele cravou um estilo. Bowie mergulhou nessa onda e saiu dela ainda mais admirado. Para, então, capturar outras nuvens...

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