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| "Keith é o cara!", poderia muito bem dizer Bowie |
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| O guitarrista Mick Ronson foi o responsável por formatar o som de David Bowie no início de sua carreira como astro do rock, no começo dos anos 1970 |
O "natural", em se tratando de mainstream na música pop, é manter-se no caminho, uma vez descoberta a tão almejada "fórmula do sucesso". Mas com David Bowie — que até fome havia passado! — as coisas não funcionam assim. Então uma estrela em ascensão, ele teve a audácia de abrir mão do respeito e admiração que havia conquistado junto ao público e à crítica como astro do glam rock, a moda de então, tendo à frente Marc Bolan (1947-1977), amigo de Bowie, e decidiu enveredar por outra seara, inimaginável para um cara como ele. Assim, deixaria de ser um rocker para encarnar um soulman. Uma guinada e tanto.
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| O rocker troca a maquiagem glitter e a fantasia de homem do espaço por um look bem comportado, com direito a ternos Pierre Cardin e até gravata-borboleta! |
Lançado em março de 1975, Young Americans foi o primeiro álbum em muitos anos a trazer David Bowie como ele próprio na capa. Ziggy Stardust era, definitivamente, coisa do passado, ainda que recente. Até então uma estrela mutante do glam rock, David Bowie deslumbrou-se com a soul music que dominava boa parte das paradas americanas naquela primeira metade dos anos 1970, mais especificamente com o chamado Philly Soul (ou soul da Philadelphia), carregado de arranjos de cordas e metais, além dos vocais típicos, personificado em nomes como os de Patti Labelle, Billy Paul e The Three Degrees. Mas havia também uma batida diferente de funk — e aí talvez resida a chave da novidade que fisgou o inglês branquelo. Ele já havia dado pinta de que seguiria essa toada no álbum David Live, gravado durante a turnê do irregular Diamond Dogs (1974), quando mostrou que estava disposto a concentrar-se na sua voz, a colocá-la em primeiro lugar, como um verdadeiro cantor, deixando em segundo plano a preocupação com as roupas que usava. Mas o extrato puro do seu mergulho no soul desembocaria, mesmo, em Young Americans.
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| Natural de Chicago, a backing vocal Ava Cherry guiou David Bowie pelos caminhos que ele precisava percorrer na América, musical e culturalmente, por assim dizer |
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| O americano de origem porto-riquenha Carlos Alomar acompanharia David Bowie por mais de dez anos, o que inclui a década de 1980, fase de maior sucesso comercial do artista inglês |
Bowie deu tamanha autonomia ao neófito Luther Vandross que, na turnê de Young Americans, em muitas das faixas era aquele negro desconhecido do Bronx quem cantava, e não The Thin White Duke — o "Duque Branco Magro", como David logo começaria a ser chamado, tanto em razão de sua forma esquálida quanto por causa da persona de mesmo nome, que viveria em seu próximo álbum, Station to Station (1976).
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| The Thin White Duke, uma das encarnações mais clean de David Bowie |
Bowie gravou parte do material no estúdio Record Plant, em Nova York (onde também seria feita a pós-produção, pelas mãos do seu produtor de confiança, Tony Visconti, também produtor de Marc Bolan & T.Rex), e, paralelamente, no Sigma Sound, na Philadelphia. "Eu me tornei um soulman, mas não para fazer um soul 'straight' ('careta'), e sim o meu soul", descreveria um David Bowie muito satisfeito com o resultado que obtivera, ao fazer uma incursão em território tão delicado e cujos ecos se fariam ouvir, também, em Station to Station, em especial nas faixas Golden Years e Wild Is The Wind. Sobre esta última, uma curiosidade: Frank Sinatra ouviu um dos takes gravados no estúdio Cherokee Studios, em Hollywood, Los Angeles, e se entusiasmou. A bem da verdade, por essa época, Bowie havia se tornado amigo de várias estrelas do primeiro time do show business, com a atriz Elizabeth Taylor. Ele, de fato, estava em outro patamar.
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| David Bowie e Liz Taylor |
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| Ao ouvir um riff funkeado de Carlos Alomar, John Lennon começou a desenhar Fame, que David Bowie, em seguida, lapidou |
Nascia, assim, o plastic soul, expressão que já havia sido usada para caracterizar o que fizera Mick Jagger, ao tentar emular Otis Redding (1941-1967) e outras feras da primeira leva da soul music, nos anos 1960. Ou seja, um branco tentando cantar como um negro. Se David Bowie conseguiu? Pois foi ele um dos poucos de pele clara a se apresentar no Soul Train, programa de TV especializado em ritmos como rhythm and blues, funk e soul. Outro fato que se percebe, tanto em trechos do documentário quanto se ouvindo as faixas do disco, é que, para criar soul (ou melhor, plastic soul), Bowie estudou o gênero. Mais do que isso, como um aluno devotado, tratou de desconstruí-lo, como fez, exatamente no mesmo ano, Tom Zé, em seu visceral Estudando o Samba (com certeza, acessando uma nuvem de inspiração similar), tão à frente de seu tempo que demarcou, erroneamente, o cantor e compositor baiano-universal como um maldito anticomercial. Até que David Byrne ouviu o LP uma década e meia depois. Só que esta é uma outra história...
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| Bowie, de certa forma, seguiu os passos que Jagger já havia trilhado nos anos 1960, porém acrescentando outros elementos ao plastic soul |
lhe seus principais elementos e, depois, os moldando à sua maneira. Ecos do saxofone de David Sanborn se fariam ouvir na década de 1980, assim como o jeito Bowie de cantar soul seria uma influência decisiva para George Michael — é só ouvir Somebody Up There Likes Me, de Young Americans, e Faith, do álbum homônimo de 1987. David Bowie não continuaria curtindo uma de soulman por muito tempo. Dessa forma, Young Americans funcionou muito mais como registro de um momento, de uma nuvem que pairava sobre a América e que Bowie soube captar tão bem e fez reverberar, com originalidade, sobre os EUA e o mundo todo, na forma de um tributo à música negra — e que, não podemos esquecer, redundaria na disco music, ainda incipiente (os Rolling Stones, por exemplo, só gravariam Miss You em 1978!). Em vez de portar-se como um mero repetidor, que é o que mais se vê no mundo pop, ele cravou um estilo. Bowie mergulhou nessa onda e saiu dela ainda mais admirado. Para, então, capturar outras nuvens...











Uma beleza de texto!
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