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| A exposição Salvador Dalí está em cartaz no Instituto Tomie Ohtake |
O que se pode dizer de Dalí? Que é um mestre do surrealismo? Sem dúvida. Porém, mais do que um grande pintor, Dalí é um mestre da desconstrução da arte, acrescentando-lhe elementos de outros campos do conhecimento, como a física, em seu processo de (re)construção. É o que se percebe em telas como A Máxima Velocidade da Madonna de Rafael (1954), em que ele revisita um quadro consagrado, a Madonna Sistina (1512), num gesto de reverência para com outros grandes mestres, como o renascentista Rafael (que ombreou com Michelangelo e Da Vinci), fazendo com que sua obra fosse lembrada -- e levada a um outro patamar -- no século 20.
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| A Máxima Velocidade da Madonna de Rafael (1954) |
Isso para dizer o mínimo sobre Dalí, e de uma só obra dele. Destaco ainda outra, Paisaje Pagano Medio (1937), esta uma clara referência à psicanálise e ao pai desta (e dele também, como afirmou o próprio Dalí), Sigmund Freud. Note que a representação da cabeça de Freud destaca-se de uma grande rocha em meio à paisagem desértica, pontuada de elementos que remetem ao universo onírico, tão caro ao pintor: as figuras fantasmagóricas que parecem flutuar sobre a areia -- uma delas seria o próprio artista --, a nuvem negra que se prepara para encobrir a cena, luzes e sombras.
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| Paisaje Pagano Medio (1937) |
Trata-se de uma exposição recomendadíssima, a maior retrospectiva que já passou pelo Brasil, embora não contemple as obras mais famosas do pintor. No Rio de Janeiro, foi vista por quase um milhão de expectadores. E fica em cartaz em São Paulo até 11 de janeiro. Se você puder, vá. Até por que, fora a fila, não custa nada.
O "Lado B" da exposição
O que mais me chamou a atenção na mostra, depois da arte, foram os visitantes. Boa parte deles empunhava um smartphone. Da antessala da exposição aos ambientes, não houve um só momento em que eu não tenha visto aparelhos sendo usados para fotografar e "selfiear". Inclusive com o uso de flashes e, pior que isso, a uma distância por vezes perigosa. Surpreso, passei a registrar essa prática.
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| Visitantes acotovelam-se para fotografar uma das obras de Salvador Dalí |
Ok. Estamos na era do selfie e tudo o mais. Todo mundo tem um smartphone e está "conectado" o tempo todo. Mas, com todo o respeito, sou do tempo (e produto de uma cultura) em que fotografar uma obra exposta era expressamente proibido, passível de retirada do espaço pelos seguranças. Agora, ao que parece, não mais... E tive a prova disso ao fim da exposição, como contarei mais à frente.
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| Mais um clique feito com câmera de celular na exposição |
Fotografar e "selfiear" parecem ser atividades estimuladas pelos organizadores da exposição, uma forma de dizer ao visitante: "Ei, pode fotografar à vontade, sinta-se em casa!". Não é mais o expectador que deve reverenciar a obra, e sim trazer a obra para o universo dele (ou do smartphone), como bem entender. Para que ele mostre, online ou depois, nas redes sociais, que esteve lá e, assim, divulgue o evento? Ou seja, seria uma inusitada -- e arriscada, já que as obras ficam suscetíveis até a flashes -- ação de mídia espontânea do instituto? Pode até ser.
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| Obra de Dalí é capturada via smartphone na mostra |
O problema, no meu entender, é que esse hábito causa uma série de transtornos, para além dos já colocados. A começar pelo tempo gasto pelas pessoas para conhecer a exposição na sua totalidade. É notável a demora que um único visitante produz ao se apropriar de um quadro, por menor que seja, como se fosse dele. E, claro, pouco se importando com quem quer "apenas" observar a tela, à maneira antiga...
Outro problema é que a fruição das obras fica totalmente comprometida, enviesada -- inclusive a minha, já que tenho de esperar por uma brecha para me colocar próximo à tela. Não basta apreciar, é preciso, antes de mais nada, registrar. "Para depois ver em casa?", me pergunto. "Qual é a graça de estar aqui, então?", prossigo. De fato, não entendo.
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| Momento selfie na Sala Mae West |
Mas, ao final, como disse anteriormente, visitei a Sala Mae West e pude comprovar que errado estava eu. É uma sala dedicada à... selfie! O segurança permite a entrada de grupos de pessoas ou indivíduos (aqueles que visitam a mostra sozinhos), para que se esparramem no sofá em forma de boca e, de frente para um grande espelho, façam rapidamente um autorretrato. A ideia é que, nessa instalação, você se sinta dentro do famoso quadro, mas o objetivo principal acaba sendo a selfie, claro. Eu e minha mulher pensamos em desistir. Mas, rindo da própria situação e por ter aguardado na fila por meia hora ou mais, fizemos.
Apesar disso, não me sinto parte desta nova forma de "interação" com a arte, a iExposição. Ainda prefiro o olho no olho.







Brilhante, muito bem observado! A obsessão (ou seria vício) pelo registro suplanta o valor da experiência, em si. A ironia é que o "eternizar para mais tarde" e "para mais gente, esvazia a vivência de seu contexto e, consequentemente, de seu significado. Vale a reflexão!
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