segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O astro Alice Cooper torna-se um de nós ao deixar aflorar Vincent Furnier, o homem por detrás da máscara

Alice Cooper brinca de Jason na capa da trilha sonora do filme Sexta-Feira 13 - Parte VI, de 1986
Em 17 de outubro, Alice Cooper deixou-se fotografar na plateia de um show. Não era um show qualquer e o astro estava lá muito mais como Vincent Damon Furnier (nome com que foi batizado, na cidade americana de Detroit, onde nasceu a 4 de fevereiro de 1948) do que como o artista performático e mascarado (no bom sentido) que nos acostumamos a admirar (ou temer, dependendo do ponto de vista), desde os anos 1970. Um artista bastante consciente de seus papeis, aliás, sendo um dos raros que conseguem se manter a parte de sua persona — como ele próprio já havia cantado em He’s Back (The Man Behind The Mask), lançada em 1986 no álbum Constrictor e que fez parte da trilha de Sexta-Feira 13 – Parte VI: Jason Vive. Aqui está o videoclipe feito para promover o filme, na época, e Alice Cooper é o mascarado por detrás da máscara do assassino em série:


Pois naquele 17 de outubro, Alice Cooper estava na Bridgestone Arena, em Nashville, nos Estados Unidos, entre pessoas comuns, como eu e você, e ao lado da mulher, a bela Sheryl, para assistir a ninguém menos que Paul McCartney. Como muitos de nós fizemos no mês passado, em São Paulo e em outros recantos do país. Alice, ou melhor, Vincent Furnier, se disse feliz por poder estar ali, e não no palco, pelo menos por um tempo. “Esta noite estou aqui para ver um de meus heróis”, resumiu ele, em alusão ao ex-beatle. E, para não contrariar sua habitual ironia, comentou que sentia falta apenas da guihotina — um dos recursos cênicos de que costuma lançar mão nos seus espetáculos para simular a própria morte (no caso, por decapitação), assim como a cadeira elétrica e assim por diante.

Alice (ou melhor, Vincent) e sua esposa, Sheryl, no gargarejo do show de Paul McCartney
Pois além da passagem de Paul McCartney pelo Brasil, o mês que findou marcou também três lançamentos importantes no campo da música pop. Bryan Ferry ressurgiu com seu Avonmore; David Bowie (de quem falei no post anterior) pôs no mercado uma nova retrospectiva, mas que inclui material inédito, Nothing Has Changed; e o velho Macca ganhou um registro de 34 de suas canções (dos tempos de Beatles, Wings e em carreira solo), em The Art of McCartney. E é sobre este álbum e, mais especificamente, sobre a participação de Alice Cooper nele que quero me debruçar neste post. Porque esse disco, aliado à aparição de Alice Cooper “descaracterizado” no show do ex-beatle, há dois meses, fornece pistas preciosas sobre a grandiosidade de Paul McCartney — e, por extensão, de seus súditos, entre os quais o quase anônimo Vincent Furnier.

Capa do álbum-tributo em homenagem ao velho Macca
O álbum duplo The Art of McCartney reúne um time respeitável de astros. Só para ficar no disco 1: Billy Joel abre o tributo com Maybe I’m Amazed; Bob Dylan revisita Things We Said Today; Brian Wilson — a grande cabeça pensante dos Beach Boys, de quem Paul McCartney é fã confesso, assim como John Lennon o era, e sem o qual não teria havido a obra-prima Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) — reinterpreta a faixa lado B Wanderlust; Willie Nelson mergulha de cabeça em Yesterday; o Kiss faz uma linda versão de Venus and Mars/Rock Show (que é bem da época em que eles começaram a fazer sucesso); Roger Daltrey, o grande vocalista do grande The Who, enverga Helter Skelter; e até o filho de Macca, James McCartney, acompanha The Cure nos teclados, em Hello Goodbye. Mas, de todas, a interpretação que mais me surpreendeu foi a de Alice Cooper, já no disco 2, em Eleanor Rigby. Assista:


Porque — repare só — Alice Cooper está despido de sua persona vilanesca. É Vincent Furnier quem canta, aquele mesmo que assistiu, da platéia, a uma performance do ídolo, pouco tempo atrás. E, indo mais fundo, o adolescente, fã fervoroso do quarteto de Liverpool, que venceu um show de calouros em Phoenix, nos EUA, dublando músicas dos Beatles, quando tinha apenas 16 anos. Em Eleanor Rigby, ele lança mão de um tom declamatório (nada a ver com a impostação verificada em Because). É, resumindo, quase um karaokê, que poderia ter sido cantado por qualquer um que tenha boa afinação. Mas quem o faz é Alice (ou Vincent), usando óculos de lentes grossas em lugar de qualquer maquiagem. E não é porque estava no estúdio e não no palco: a gravação foi registrada em vídeo e Alice sabia muito bem que essa imagem "clean" correria o mundo. Ou seja, dá para afirmar que foi intencional.

Com óculos de lentes grossas, Vincent Furnier manda ver na gravação de Eleanor Rigby
Lançada no LP Revolver (1966) e também como lado B de um single cujo lado A era, simplesmente, Yellow SubmarineEleanor Rigbycomeçou a ser composta em 1965, ainda durante o período do álbum Help! — ou seja, uma fase de transição do iê-iê-iê para a psicodelia. Mas já carrega elementos novos que estariam cada vez mais presentes nos discos dos Beatles dali para a frente. O experimentalismo é um deles, e tem-se um Paul McCartney cantando sozinho, a exemplo do que fizera em Yesterday (John Lennon e George Harrison fariam apenas o coro), fazendo-se acompanhar de um octeto de cordas (violinos, violas e cellos), com arranjos do lendário produtor George Martin, o quinto beatle, e sob a batuta do próprio maestro. Tanto para Paul quanto para Martin estava claro que guitarra, baixo e bateria seriam supérfluos. Até porque a canção é uma ode às pessoas solitárias e pede solenidade (a senhora que empresta nome à faixa morreu e ninguém foi ao seu velório...).

Orientado por George Martin, Paul McCartney gravou o vocal de Eleanor Rigby sozinho 
Anos depois, descobriu-se que existiu, de fato, uma mulher chamada Eleanor Rigby, cuja sepultura estava no cemitério da Igreja de São Pedro, em Liverpool. O mesmo lugar onde um jovem de 15 anos chamado Paul McCartney viu, pela primeira vez, o show dos Quarrymen, banda de um cara mais velho, de quem logo se tornaria amigo e parceiro, John Lennon, nos idos de 1957. Teria a imagem do túmulo ficado no imaginário do jovem Paul? Há espaço para especulações, mas a história, de qualquer forma, está escrita: ambos formaram os Beatles e a banda é (e, provavelmente, sempre será) a maior referência musical do pop — tendo sido, inclusive, uma grande inspiração para Alice Cooper, conforme já disse.

John Lennon e Paul McCartney antes da fama, nos tempos de Quarrymen
Essa passagem lembra o início da trajetória de Alice Cooper. A primeira banda da qual tomou parte, The Earwigs, imitava os Beatles. Logo, ele e seus colegas passaram de imitadores a criadores. O grupo teve seu nome mudado para The Spiders e, com o tempo, Vincent destacou-se a ponto de se transformar em Alice Cooper. O resto da história todos nós já sabemos. Mas Alice (ou Vincent) jamais deixou de reverenciar os Beatles. A primeira vez que fez isso claramente foi no estranho filme Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1978), em que ele interpreta o personagem Father Sun e canta Because — muito dramaticamente, como era de se esperar — com os Bee Gees, tendo a produção de George Martin. Uma parceria improvável? Pois veja só o resultado:


Mas há que se lembrar também que, fora dos estúdios e sets de gravação, Alice Cooper — já um astro estabelecido no início dos anos 1970 — mantinha amizade com ninguém menos que John Lennon. Vivendo nos Estados Unidos, Lennon fazia parte, literalmente, do clubinho de Cooper, o Hollywood Vampires, improvisado em um bar de Los Angeles. O clube incluía outros dois famosos bateristas, Ringo Starr, dos Beatles, e Keith Moon (1946-1978), do Who, entre várias outras personalidades do rock. A respeito disso, duas notas: 1) Alice Cooper homenageará membros da “agremiação” setentista em seu próximo álbum, a ser lançado ano que vem, por meio de covers (entre os quais Revolution, dos Beatles, e My Generation, do Who); 2) Alice Cooper diz que parou de beber ainda na década de 1980, pois se deu conta de que queria continuar vivo e gravando discos, em vez de ficar pelo meio do caminho, como fizeram tantos amigos e ídolos (caso do próprio Keith Moon).

Alice Cooper e John Lennon entornam alguns drinques no Hollywood Vampires, nos anos 1970
Em The Art of McCartney, Alice Cooper parece voltar décadas no tempo e reencarnar o adolescente que nasceu para a música sob as bênçãos dos Beatles. E que depois inspirou grupos tão diversos como Mötley Crüe, Twisted Sister, AC/DC, Guns N’ Roses, Kiss, Sex Pistols e Sonic Youth. Inovador e performático, Alice Cooper atraiu a atenção também de artistas de outros círculos, como os atores Groucho Marx (1890-1977), dos Irmãos Marx, Mae West (1893-1980), George Burns (1896-1996) e Fred Astaire (1899-1987). E, especialmente, a atenção de Salvador Dalí (1904-1989). “A melhor forma de comunicação é a confusão, e o maior expoente da confusão que conheço é Alice Cooper”, disse o artista espanhol, ao justificar sua incursão em uma linguagem pouco usual — até para um experimentador como ele! — das artes plásticas (e gráficas), na tentativa de esquadrinhar a mente (e o gênio) do cantor americano, na obra First Cylindric Chromo-Hologram Portrait of Alice Cooper’s Brain (1973).

Salvador Dalí demonstra sua criação, utilizando, para isso, a obra viva, Alice Cooper 
Trata-se de uma imagem tridimensional (que, hoje, faz parte do Teatro-Museu Dalí, na Espanha), em que o cantor enverga uma tiara de US$ 2 milhões e uma gargantilha de US$ 3 milhões (segundo valores da época). Alice Cooper está sentado sobre uma base rotacional e segura uma reprodução da clássica estátua Vênus de Milo, como se fosse um microfone. E atrás da cabeça do cantor há um cérebro de gesso. Dalí usou a então inovadora tecnologia da holografia (processo de fotografia em três dimensões, mediante o uso de laser, para produzir hologramas) e fez do ascendente artista uma obra em si. Na visão do pintor, a persona criada por Vincent Furnier havia adquirido vida própria e vigorava em uma dimensão imaterial (não faltou sarcasmo a Dalí, portanto, ao usar jóias caríssimas para compor a imagem).

O célebre holograma cunhado pelo pintor espanhol fez do cantor americano uma obra de arte 
Como se vê, Alice Cooper possui um currículo vasto, dentro e fora dos palcos. Calcula-se que tenha vendido perto de 45 milhões de discos. Teria motivos de sobra para esbanjar soberba. Mas é o contrário disso que se vê, sobretudo no tributo a Paul McCartney (e, por extensão, aos Beatles). Ao despir-se de qualquer máscara para, humildemente, cantar Eleanor Rigby, Vincent Furnier não tentar ser maior que uma música, simplesmente, grandiosa. É apenas um homem comum. Como eu e você, ou quase isso. Palmas pra ele!

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