O que os atentados de Paris (e a música) podem nos ensinar sobre a convivência pacífica com aquilo que é diferente?
Escrevo este texto
ainda sob o impacto dos atentados ocorridos em Paris, que tiveram numa casa de
espetáculos um de seus principais alvos. Na fatídica noite da sexta 13, tocava
no palco do Le Bataclan o grupo de rock Eagles of Death Metal, formado, entre
outros, por Josh Homme, que integra também o Queens of the Stone Age — o qual se
apresentou no mais recente Rock in Rio. Segundo um comunicado do Estado
Islâmico, que assumiu a autoria dos atentados, o Bataclan não foi atacado ao
acaso. Havia um propósito, e era (é...) combater o rock, um estilo de música “pervertido”
(“Centenas de idólatras estavam juntos em uma festa de perversão”, diz um
trecho), que influencia as pessoas ao redor do mundo. Logo, pensam, é legítimo
exterminar a música, e nada mais efetivo do que massacrar seus seguidores e
propagadores.
Joe Strummer, da
banda punk inglesa The Clash, já advertia, em tom jocoso, no início dos anos
1980, que “Shareef don’t like it / Rock the Casbah”. Ou seja, Shareef, um
personagem fictício mas com poder de censura em algum país do Oriente Médio,
não gosta de agito no seu pedaço. Então, ouvir rock, nem pensar! A faixa tornou-se
um sucesso mundial, ainda mais quando virou videoclipe (Assista aqui), em que os músicos tocam
ao pé de um poço de petróleo e situações improváveis acontecem: um tatu passa por
entre as pernas deles; um judeu ortodoxo dá carona para um árabe dissidente do
regime ditatorial, que ouve Rock the
Casbah em seu boombox; no carro,
ambos dançam ao som da canção, enquanto se dirigem para um show do Clash
coalhado de ocidentais; jatos militares sobrevoam a cena.
Strummer contou que
a inspiração para escrever Rock the
Casbah, lançada, ironicamente, no disco Combat
Rock (1982), veio da notícia de que iranianos teriam sido açoitados por portar
discos de música ocidental, o que era absolutamente proibido pelo aiatolá
Khomeini. Muita água (e sangue) rolou por debaixo da ponte nesses mais de 30
anos. Por causa do verso “Bombas entre os minaretes”, Rock the Casbah foi até usada como música-símbolo pelos militares
dos EUA na Guerra do Golfo, enquanto despejavam suas bombas no Oriente Médio, o
que desagradou a Joe Strummer. Em mãos alheias, uma peça do pop rock destinada
à diversão tornou-se efetivamente política, no pior sentido. O que difere
absolutamente do fato de uma canção ou de astros do rock servirem a causas
humanitárias — vide USA for Africa e Live Aid, nos anos 1980. Ou das chamadas
“canções de protesto”, que, sobretudo nos anos 1960, usavam de poesia para
criticar o sistema.
Não é de hoje que a
intolerância elege suas vítimas no rock. Foi assim com o surgimento do próprio
gênero, no final dos anos 1950. Advindo do blues, do rythm & blues e da
country music, mas também da gospel music, ironicamente, o rock and roll fez
muita gente torcer o nariz. Pais preocupavam-se com o destino dos filhos
hipnotizados pelo ritmo. Negros — os verdadeiros criadores da coisa toda — mal
podiam aparecer na TV, e foi preciso personificar tudo aquilo em um Apolo branco dançarino,
de pélvis agitada: Elvis Presley. Logo depois, queimaram-se álbuns dos Beatles,
acusados de atentar contra a religião cristã. “Somos mais famosos que Jesus
Cristo”, bradou John Lennon em uma entrevista coletiva. O ideário de paz e
amor, cunhado pelos próprios Beatles, entre outros grupos, reverteu a história
a favor deles. Veio o festival de Woodstock, a consumação máxima desse conceito.
Mas, em seguida, veio o concerto de Altamont Speedway, em que os Rolling Stones
tentaram fazer um show de rock gratuito num autódromo americano e colheram
confusão: os Hell’s Angels, responsáveis pela segurança do espetáculo,
terminaram por matar um jovem negro na plateia. Era o fim do sonho.
Por isso me assusto
quando vejo uma banda de rock advogar em favor de uma causa fundamentalista.
Sim, o limite entre a diversão despretensiosa e o fervor político é frágil.
Basta que alguém erga uma bandeira, brade palavras de ordem, risque um palito
de fósforo e pronto: o fogo pode pegar. O massacre de Paris não é mais
importante que nenhuma outra tragédia, mas me chocou por ter sido um ato calculado
por seres humanos, com base em uma das coisas que temos de pior, a
intolerância. E por atentar contra algo tão sagrado além do rock, a liberdade —
de ir a um show, de idolatrar a banda favorita, de comprar um disco, de curtir
um som... Daí que toda e qualquer guerra ao terror terá de passar,
necessariamente, pelo caminho da tolerância, que nada mais é do que conviver pacificamente
com aquilo que nos é diferente. Mas, para tanto, é preciso estar disposto a aceitar.
O rock tem bastante a ensinar sobre isso. Porque tende a incluir, a fazer
pertencer, e não a separar, a excluir (salvo algumas exceções, infelizmente,
ainda). Rock não rima com intolerância. Talvez por isso incomode tanto os intolerantes.
